Ser Flamengo
Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro e forte na capacidade de querer. É ter certezas, vontade, garra e disposição. É paixão com alegria, alma com fome de gol e vontade com definição. É ser forte como o que é rubro e negro como o que é total. Forte e total, crescer em luta, peleja, ânimo, e decisão.
Ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha e nela entrar por inteiro, alma de herói, cabeça de gênio militar e coração incendiado de guerreiro. É pronunciar com emoção as palavras flama, gana, garra, sou mais eu, ardor, vou, vida, sangue, seiva, agora, encarar, no peito, fé, vontade. Insolação.
Ser Flamengo é morder com vigor o pão da melhor paixão; é respirar fundo e não temer; é ter coração em compasso de multidão.
Ser Flamengo é ousar, é contrariar norma, é enfrentar todas as formas de poder com arte, criatividade e malemolência. É saber o momento da contramão, de pular o muro, de driblar o otário e de ser forte por ficar do lado do mais fraco. É poder tanto quanto querer. É querer tanto como saber; é enfrentar trovões ou hinos de amor com o olhar firme da convicção.
Ser Flamengo é enganar o guarda, é roubar o beijo. É bailar sempre para distrair o poder e dobrar a injustiça. É ir em frente onde os outros param, é derrubar barreiras onde os prudentes medram, é jamais se arrepender, exceto do que não faz. É comungar a humildade com o rei interno de cada um.
É crer, é ser, é vibrar. É vencer. É correr para; jamais correr de. É seiva, é salva; é vastidão. É frente, é franco, é forte, é furacão. É flor que quebra o muro, mão que faz o trabalho, povo que faz país.
(Artur da Távola)
quarta-feira, 2 de junho de 2010
terça-feira, 1 de junho de 2010
Novo Acordo Coletivo de Trabalho
"A LENDA DO REI CAPENGA
Em certo reino um rei havia
De nobre estirpe secular
Que começou, um belo dia,
Do pé direito a capengar.
Um calo enorme era o motivo
Que dava ao rei um tal cacoete:
_Calo feroz, duro, agressivo,
Plantando sobre o tal joanete.
Mas essa causa assim plebeia
Ficava mal se publicar;
E toda a corte teve a ideia
De andar coxeando, a capengar.
Prícipes, duques e marqueses,
Viscondes, condes e barões
Andavam, coxos e corteses,
Com mil mesuras nos salões.
Passou da corte à burgeuseia
O modo esdrúxulo de andar;
Vulgarizou-se a tal mania
E andava o povo a capengar.
Desde a nobreza solarenga
Ao camponês da rude grei,
Tudo no reino era capenga
Para engrossar o velho rei.
E o rei sorria, satisfeito
Por ser benquisto e popular;
Não era mais nenhum defeito,
Naquele reino, o capengar.
Mas eis que, um dia, um tipo surge,
Em passo firme, andando bem;
O povo, unânime, se insurge,
E a corte a fúria não contém.
Possessa, dis toda a cidade:
_Castigo, dê-se-lhe, exemplar!
Crime é de lesa-majestade
Viver, aqui, sem capengar.
É preso o infame; e logo o júri
Se reúne ali, dos cidadãos,
Para que o crime, enfim, apure
E o vil, da lei, caia nas mãos.
E clama o júri: _O reino insulta!
O nosso rei tenta aviltar!
E ruge e freme a turbamulta,
De um lado a outro, a capengar.
Mas fala o réu: _Por Jesus Cristo,
Não me mandeis para galés!
Se ando direito, é só por isto:
_Eu sou capenga dos dois pés..."
(Bastos Tigre, Antologia poética, vol. 1 pp. 272 - 274)
Em certo reino um rei havia
De nobre estirpe secular
Que começou, um belo dia,
Do pé direito a capengar.
Um calo enorme era o motivo
Que dava ao rei um tal cacoete:
_Calo feroz, duro, agressivo,
Plantando sobre o tal joanete.
Mas essa causa assim plebeia
Ficava mal se publicar;
E toda a corte teve a ideia
De andar coxeando, a capengar.
Prícipes, duques e marqueses,
Viscondes, condes e barões
Andavam, coxos e corteses,
Com mil mesuras nos salões.
Passou da corte à burgeuseia
O modo esdrúxulo de andar;
Vulgarizou-se a tal mania
E andava o povo a capengar.
Desde a nobreza solarenga
Ao camponês da rude grei,
Tudo no reino era capenga
Para engrossar o velho rei.
E o rei sorria, satisfeito
Por ser benquisto e popular;
Não era mais nenhum defeito,
Naquele reino, o capengar.
Mas eis que, um dia, um tipo surge,
Em passo firme, andando bem;
O povo, unânime, se insurge,
E a corte a fúria não contém.
Possessa, dis toda a cidade:
_Castigo, dê-se-lhe, exemplar!
Crime é de lesa-majestade
Viver, aqui, sem capengar.
É preso o infame; e logo o júri
Se reúne ali, dos cidadãos,
Para que o crime, enfim, apure
E o vil, da lei, caia nas mãos.
E clama o júri: _O reino insulta!
O nosso rei tenta aviltar!
E ruge e freme a turbamulta,
De um lado a outro, a capengar.
Mas fala o réu: _Por Jesus Cristo,
Não me mandeis para galés!
Se ando direito, é só por isto:
_Eu sou capenga dos dois pés..."
(Bastos Tigre, Antologia poética, vol. 1 pp. 272 - 274)
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